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Quando se calar é mais fácil.

Oi! Sou Mari Gomes e este é meu primeiro post por aqui! Sou blogueira no Maia Vox e tenho paixão pelo ser diferente. Por isso amo moda, música e, é claro, meu black power.
O ícaro me convidou para uma coluna e, portanto, quinzenalmente aos sábados publicarei textos sobre empoderamento feminino. Espero que curtam as nossas conversas! ;)
No início do mês, quando a Willow Smith se tornou embaixadora da Vogue, passei bastante tempo pesquisando sobre a trajetória dela. Fiquei surpreendida que com apenas 15 anos ela já é muito dona de si e fala o que pensa com clareza, através de suas músicas – por sinal maravilhosas - declarações em entrevistas e seus tuítes.
Willow sempre falando o que sente! <3

Queria eu aos 15 anos ter toda essa coragem de falar o que penso. “Fala pra fora, menina!”. Era o que minha mãe vivia me dizendo. Eu achei por bem de não querer mais falar. Era mais fácil, sobretudo fora de casa.

Hoje eu me pergunto: quantas vezes, quando não me entenderam, eu desisti de repetir o que tinha dito? Quantas vezes eu nem mesmo comecei a dizer por já esperar que não me escutariam? Muito mais do que posso imaginar ou admitir.

Com o tempo essa atitude foi me pesando na alma e decidi começar a escrever. Já tive diários, alguns blogs e a cada texto terminado era uma sensação de alívio. Hoje já me permito a escrever sobre questões sérias que perpassam pela minha vida, como feminismo e combate ao racismo, publicamente em meu blog, o Maia Vox, onde o aprendizado tem sido enorme.

Entretanto falar em público ainda me é difícil. Lembro que ano passado tive que falar para uma multidão e quase me escondi atrás do palco. Tudo estava na minha cabeça, mas eu não consegui me expressar. Voltei para casa e chorei como se não houvesse amanhã. Um tempo depois me apareceu essa frase: “Nunca fui tímida. Fui silenciada.” Ela foi proferida pela Monique Evelle, fundadora do Desabafo Social, e após isso ganhei um novo tipo de percepção.
Camisas da loja www.kumasi.com.br
Notei que nas poucas vezes em que me meti a falar de feminismo foi mais ou menos assim: “Vai, deixe ela resmungar aí.” Pior ainda é quando o assunto é racismo: poucos são aqueles dispostos a entrar na discussão e ela geralmente caminha para o lado defensor de que isso ficou no passado, mas a verdade é que ninguém quer reconhecer e falar abertamente sobre suas atitudes racistas.

Uma situação em especial não me sai da mente. Um professor meu achou melhor reexplicar pela milionésima vez os clássicos da sociologia do que discutir o último assunto do módulo que era justamente os movimentos sociais, e assim a oportunidade de discutir racismo e sexismo na escola, esperada por mim a vida inteira, foi desperdiçada.  

Segundo ele todo mundo ali na sala já sabia daqueles movimentos e as teorias de Comte, Durkheim, Marx e Weber eram muito mais importantes para o vestibular e a nossa vida. Só que não! Ainda mais para uma prova como o ENEM, objetivo da maioria ali, muito menos para as nossas vidas! 

Se as pessoas realmente soubessem sobre o movimento feminista não intitulariam as ativistas de “feminazi” e o estupro e o feminicídio não seriam banalizados como são. Se realmente soubessem sobre o movimento negro não desrespeitariam o discurso dos seus defensores chamando-o de “mimimi” e muito menos aceitariam a violência contra juventude negra neste país chamado Brasil.

O problema foi que a decisão desse professor me serviu como um silenciador. Eu, já acostumada a me calar, simplesmente não consegui explanar minha opinião como mulher negra nesse contexto, por mais ansiosa que estivesse para agarrar a oportunidade.  

Percebi aí que o medo de me expressar dava a chance de quem quisesse me calar. Primeiro me acostumei com o silêncio, em seguida com as opressões que me ocorreram, por último era fácil reprimir meus próprios pensamentos.

É por tudo isso que resolvi agora não deixar me calar. Se eu estiver com medo, vou falar assim mesmo. Se minha voz tremular, vou lutar pelo meu lugar de fala. Posso até perde batalhas de vez em quando, mas não deixarei de tentar vencê-las. E a cada texto nessa coluna eu espero ajudar vocês do lado daí a não se intimidarem quando o ambiente em que estiverem se mostrar hostil para sua expressão.

Reflita: quantas vezes você já desistiu de falar? Quantas vezes já não te deixaram falar? Será que sua timidez não surgiu para se defender dos silenciamentos?

Espero que tenham gostado do texto! Estão mais do que convidadxs a conhecerem meu blog, o Maia Vox –conversas para distrair, empoderar e celebrar. Sugestões de temas para os próximos posts são super bem-vindas!  E ah, me conte nos comentários o que achou do texto e se já vivenciou uma situação parecida. Adoraria saber!


Vejo vocês daqui a duas semanas! Um grande abraço e até mais! 

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